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A difícil arte de se criar uma playlist



Tudo começou com o rádio-relógio e um gravador antigo de fitas cassete. A gente ficava ouvindo a Rádio América, e gravando as músicas direto no gravador, com todos os sons ambientes inerentes ao processo. E tinha que prestar uma atenção danada pra não cortar a música, pegar desde o começo, e cortar o locutor no final.
Depois vieram os 3 em 1da Gradiente, e a coisa toda ficou mais fácil. Bastava colocar lá o disco, ou deixar no rádio, e apertar o REC.
Mas a montagem das fitas com as "Melhores do Fulano" ficou boa mesmo quando vieram os CDs, e consequentemente as locadoras de CDs. Aí era uma maravilha: alugavam-se vários CDs de sua banda predileta, comprava-se um fita TDK (se a banda fosse boa mesmo, valia o investimento em uma TDK preta), e aí era "só" ficar fazendo as contas pra ver quantas músicas cabiam em cada lado da fita, balancear os lados pra não deixar um lado muito legal e outro muito chato, montar a capinha bacana pra fita.Ainda hoje tenho uma fita do UB 40 que me acompanhava nas viagens pro Guarujá, é só eu ouvir "Kingston Town" que eu volto imediatamente para aquela época.
Hoje em dia temos os MP3 players, os iPods, e a vida ficou fácil, certo? É só plugar o MP3 no seu micro, baixar um milhão de músicas, e sua vida musical toda cabe lá nesse aparelhinho. Mas, como a Internet, esse excesso de informação trouxe problemas que não tínhamos antes. É só ver as situações abaixo:

  • Modo Shuffle: Você fala pro iPod misturar as músicas todas de sua vida, e vai trabalhar com essa trilha sonora. É muito bacana, a cada música você lembra de algo, aquele música te leva pra algum lugar distante e extremamente agradável. E aí você se empolga, começar a cantar e batucar no meio da empresa. E, como a música está com o volume lá no alto, você acha que está cantando horrores. Acredite, você está cantando muito mal, e os olhares que você está atraindo não são de admiração, ninguém está achando que você devia montar uma banda de covers e ganhar a vida na noite interpretando um repertório eclético.
  • Seleção pra ir do trabalho pra casa, ou qualquer outro caminho: Você mantou aquela playlist bacana, com suas músicas prediletas, três horas de músicas da maior qualidade. Mas o caminho do serviço pra casa dura apenas meia hora. Então, a 5 minutos de casa, você resolve que quer ouvir todas, e vai passando loucamente de uma pra outra, ouvindo apenas os primeiros vinte segundos, num verdadeiro pout pourri.
  • Seleção pra correr: Escolhem-se as músicas mais animadas, e lá vai você, com aquele preparo físico invejável, correr ouvindo aquela bateção toda. E ainda tem aqueles aplicativos do iPod que medem a distância e o tempo, e ficam te dando incentivos: "Você vai bater seu recorde para os 5k", ou "Você bateu seu recorde de distância". Aí junta tudo isso, você empolgado pela mocinha do iPod, e lascou. No outro dia, dores musculares múltiplas nas pernas, ou você acorda querendo correr mais amanhã pra tentar bater seu recorde de novo, no ritmo da batida da música, ou monta uma seleção de lentas e resolver fazer uma caminhada.

Comentários

  1. adorei... ainda hj tenho problemas com as minhas playlists... tem musica que aparece sem eu ter colocado, musicas chatas que nao consigo apagar da minha playlist preferida, mas vamos indo, nada como uma boa musica pra dar vontade de se trocar e sair correndo, pena q só dá tempo pra se trocar, não dura até chegar na rua...
    "Oh, sometimes I get a good feeling, yea..."

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