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Um ano

 


Um ano se passou, um ano que meu pai se foi. Um ano que tenho que aprender a conviver com o luto, um novo sentimento que vem me acompanhado desde então. Com a raiva lido bem, já era minha companheira há algum tempo, na verdade até me ajuda vez ou outra. Agora ela ganhou um companheiro.

Um ano desde que caiu a ficha que estou por conta própria pra resolver meus próprios BOs. Não teria condições de escrever sobre minha mãe, ela é tudo, ela nos criou. Mas pra nós, nascidos nos anos 70, pai era aquele que trazia o dinheiro pra casa, que resolvia todos os problemas, ou pelo menos os encaminhava. Mesmo já sendo um adulto funcional há muito tempo, quando a gente perde o pai parece que nos damos conta que é isso, vai que é sua.

Um ano de sonhos e pesadelos recorrentes com ele, alguns com ele sorrindo e saudável, outros nem tão floridos. Um ano que minha relação com seres humanos mudou mais ainda, no sentido de esperar menos ou nada do próximo, com a óbvia exceção de minha família. Afinal, fui demitido um mês depois que você se foi, tendo trabalhado dias e dias da UTI. No final das contas, sinto que ninguém se importa mesmo. 

Um ano de perceber com mais clareza a finitude da vida e a escassez do tempo, e de tentar usá-lo da melhor maneira possível. Um ano de não olhar mais o calendário de jogos do Corinthians na semana, pra ir assistir com meus pais, tomando um Monster, deitado no chão da sala.

Ainda assisto, sem a menor vontade, mas só pra contar pra ele como foi. 

A propósito, a ilustração chama-se "O Comedor de Batatas", pintada por Van Gogh, em luto pela perda de seu pai,


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