Sinto te informar, mas não vai ser fácil. Você vai lembrar dele nas mais variadas situações, boas e ruins. Vai ter sonhos e pesadelos, que talvez você queira interpretar como recados, broncas, dicas. Você vai chorar sem ninguém ver, rir do nada. E está tudo no script. Não me interprete mal, mas você está sozinho nessa. Há fases que você terá que passar, dizem os psicólogos, e ficar se lamentando não te fará bem, pelo contrário, vai te expor a ouvir coisas vazias que não quer ouvir, ou se tornar o chato que só reclama. Por outro lado, as pessoas que realmente se importam são aquelas que sabem que não há nada dizer, e no máximo te ouvirão em silêncio. A essas que você deve ser realmente grato. Aguente firme, você vai aprender a lidar com isso. Eu sei que é muito de saudades, e muito também de ter sido exposto à sua própria finitude, e isso não é fácil. Desde sempre ouvimos falar que a vida é muito breve, aprenda de uma vez que isso é a mais pura verdade, e faça valer o tempo....
Um ano se passou, um ano que meu pai se foi. Um ano que tenho que aprender a conviver com o luto, um novo sentimento que vem me acompanhado desde então. Com a raiva lido bem, já era minha companheira há algum tempo, na verdade até me ajuda vez ou outra. Agora ela ganhou um companheiro. Um ano desde que caiu a ficha que estou por conta própria pra resolver meus próprios BOs. Não teria condições de escrever sobre minha mãe, ela é tudo, ela nos criou. Mas pra nós, nascidos nos anos 70, pai era aquele que trazia o dinheiro pra casa, que resolvia todos os problemas, ou pelo menos os encaminhava. Mesmo já sendo um adulto funcional há muito tempo, quando a gente perde o pai parece que nos damos conta que é isso, vai que é sua. Um ano de sonhos e pesadelos recorrentes com ele, alguns com ele sorrindo e saudável, outros nem tão floridos. Um ano que minha relação com seres humanos mudou mais ainda, no sentido de esperar menos ou nada do próximo, com a óbvia exceção de minha família. Afinal...