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E aí você monta um time ...


E aí, um belo dia, você resolve dar um jeito no time de futebol do seu clube. Você estuda, analisa, faz as coisas direitinho, perde horas e horas de sono pra ajeitar as coisas. E por um misto de competência e sorte, não é que tudo começa a ir pra frente?
Você contrata uma molecada bacana, aproveita outros da base, e o time vai tomando forma, ganhando uma peleja aqui, outra ali. O povo da cidade, pequena, vai se empolgando a ir assistir seus jogos. O nome do seu time começa a aparecer nos jornais, nos rádios, até na TV. 
A molecada que brinca e trabalha de jogar bola começa a sonhar com um futuro. Longe das ruas, longe da pobreza. Sonham em ter dinheiro um dia pra ajudar a mãe a comprar uma casa maior para ela, o pai e todos os irmãos viverem. Sonham em comprar um carrão pra curtir as baladas com os parças.
Vocês resolvem ir jogar o Campeonato Brasileiro. Série D, Série C, Série B, Série A, a elite do futebol nacional. Orgulho da cidade, do estado. Seus pais espalham aos sete ventos que os filhos estarão lá na Globo, domingo à tarde, o Galvão e o Cleber Machado falando o nome deles. 
Aí você é um jogador do time, que vai jogar um torneio internacional. Fase de classificação, oitavas de final, quartas de final, você e seus companheiros vão passando com muito sofrimento, fase a fase. 
Chegam às semifinais, treinam mais forte, chegam mais cedo e vão embora mais tarde. Você vê seus amigos de time conversando com clubes grandes, contratos polpudos, e pensa que sua vez também vai chegar, os dias de miséria definitivamente ficarão pra trás.
Então você é o goleiro do time, e no último minuto do último jogo faz uma defesa milagrosa, levando o time às finais, batendo os malas argentinos. Você virou um herói. O título é agora apenas um detalhe.

Então a porra do avião resolve cair. 

E você, mais um trabalhador acordando cedo pra levar os filhos pra escola e depois pegar um trânsito dos infernos, escuta no rádio que a porra do avião caiu. Você, que uma vez voltando de um campeonato em Santa Maria fez um pouso de emergência em, adivinha só, Chapecó, se coloca imediatamente no lugar desses jogadores, desses jornalistas, de suas famílias, e chora. Empatia. 

Você, que em algum lugar do mundo está sentado em sua cadeira giratória reclinável, olhando para seus funcionários e se achando o rei da cocada preta, será que não percebeu ainda que é um nada, que mais dia, menos dia, a vida pode vir e te dar um tombo ? E você , que está na sarjeta se achando um nada, ainda não percebeu surpresas boas também podem vir ? 

Life is short, and fate is a cruel bitch. 

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