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O jogo de poker



Estava na meia idade, vida típica de classe média, em um emprego mais ou menos. E assim também, sem mais nem menos, foi mandado embora. Corte de custos, foi a justificativa. Contratariam um homem mais novo, com salário menor, e se não desse certo paciência, outros viriam.
Mandou currículos, fez uma assinatura da Catho, e acabou achando outro trabalho. Voltaria a dar aulas de Química, teria que vender o carro, mas pelo menos os filhos adolescentes estudariam de graça, não sem antes reclamar da injustiça de terem de mudar de escola.
Foi buscar o dinheiro do FGTS mais os 40% de multa. No caminho de volta, sentado na janelinha de um ônibus parado há meia hora no trânsito por conta de mais uma manifestação, perguntou-se se esse seria seu destino afinal, ter uma vida no meio do caminho entre o ruim e o bom. Malditos barrocos e seu aureas mediocritas.
Resolveu cometer uma extravagância. Pegaria o dinheiro da demissão e investiria tudo na produção de meta anfetaminas. Como não era nenhum Walter White, decidiu mesmo levar tudo para um jogo de poker, Afinal, há tempos já estava estudando, e já tinha ganho até uns poucos dólares no Pokerstars. Ganho e logo em seguida perdido, mas isso são detalhes.
Inscreveu-se num jogo bacana, com jogadores bacanas, alguns profissionais, outros amadores como ele. Estava se sentindo com sorte, hoje o Papai do Céu certamente apontaria para ele e diria "você é o cara".
Depois de algumas mãos medíocres, perdeu uma parte do dinheiro. Mas as coisas viraram lá pelo meio da noite. Recebera um par de ases. 
Apostou pouco, não queria afugentar ninguém. Todos os ricaços da mesa pagaram, o pote de dinheiro ficou grande, Começou a imaginar o que faria com o prêmio. Uma reforma na casa talvez, ou um investimento naquela pós graduação que sempre quis fazer. Tentou disfarçar a empolgação, caprichou na poker face.
Vieram as cartas comunitárias: mais um ás, e duas outras cartas de naipes iguais, copas. Aumentou a aposta, todos desistiram, menos um moleque do outro lado da mesa, que pagou. Com certeza seria um filhinho de papai, brincando entre os peixes grandes, pensou. Não dá mesmo valor para o dinheiro, melhor pra mim, vou levar a bolada toda. Sorriu confiante.
Veio a quarta carta, que aparentemente não ajudou nenhum dos dois. Apostou mais ainda, dessa vez o moleque fugiria. Mas ele pagou novamente, enquanto conversava maliciosamente com a garçonete, que lhe servia um energético. Suou frio... será que, ao invés de um plaboyzinho qualquer, ele seria um desses gênios da matemática, calculando secretamente todas as probabilidades? Não, com certeza não... só um blefe, tenho que ser confiante e agressivo, ponderou. E imaginou o carrão quase popular 0km na garagem, sem preocupação com o valor do IPVA. Forçou uma postura relaxada na cadeira, havia lido que seria um sinal de mão forte.
A quinta carta foi revelada, e caiu como uma bomba: outra carta de copas. Se o garoto metido a besta tivesse duas de copas consigo, estaria tudo perdido. Olhou para sua pilha de fichas, para o pote, e fez as contas. Ganhar lhe daria a chance de uma nova vida, novas perspectivas, a chance de fazer coisas diferentes, criar asas. Perder? Bem, perder não seria o fim do mundo, apenas estaria amarrado àquela vida mediana. Do outro lado, o menino olhava desafiador, como se fosse a própria vida zombando dele. "E aí, vai ter coragem de arriscar, ou vai ficar por aí mesmo?". "Não era isso que você queria?"

Moveu todas as fichas pro meio da mesa. All in, A vida, lá do outro lado, sorriu. Um sorriso não mais de zombaria , mas sim de orgulho e respeito. O tiozão tinha bolas, pensou a vida. E pagou.

Viraram as cartas. O homem de meia idade mostrou sua mão, trinca de ases. Uma mão não excepcional, mas não ruim também, 

O moleque metido a gênio mostrou as suas...






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